O trabalho da socióloga e facilitadora, Joenilda Feitosa

No mês de outubro, quando, no Brasil, se comemora o dia das professoras e dos professores, vamos conhecer o trabalho da socióloga e facilitadora, Joenilda Feitosa. O ponto de partida da pesquisadora é a falta de acesso ao sistema educacional por adolescentes, que cumprem medidas socioeducativas em meio aberto.

Joenilda encontrou, nas metodologias da TDH Brasil, possibilidade de atuação pela inclusão social e pela mediação de conflitos. A partir de um acordo com Lar Fabiano de Cristo, ela replicou os procedimentos desenvolvidos pela TDH para redução de conflitos e violências na instituição.

O resultado deste processo é a dissertação Cultura de Paz e Resolução Positiva de Conflitos: replicagem da metodologia TDH na Unidade Lar Fabiano de Cristo – Casa Rodolfo Aureliano que está na biblioteca.

Nesta entrevista, a Joenilda comenta as escolhas e os resultados da pesquisa, a partir das observações realizadas durante o processo e das entrevistas com os quatro segmentos da comunidade socioeducativa: gestoras, profissionais, educandos e famílias.

1. Como foi o seu primeiro contato com a TDH Brasil?

Em maio de 2016, quando era aluna especial do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos da UFPE, eu cursei a disciplina isolada de Justiça Restaurativa, cuja avaliação final consistia em duas opções. Ou a pessoa fazia o resumo das aulas do semestre, ou elaborava um projeto de extensão no campo da JR. Optei pelo projeto e fui advertida que só poderia ser facilitadora de círculos se fizesse uma formação para tal função na AJURIS (Escola Superior de Magistratura) em Porto Alegre ou na TDH Brasil em Fortaleza.

Optei pela TDH pela sua missão, distância geográfica e custos. Ao retornar desta formação, tinha clareza da temática do meu projeto de dissertação e resolvi concorrer ao mestrado em agosto de 2017. Fui aprovada para a turma do ano de 2018. 

2. O que te motivou a fazer a dissertação a partir da metodologia TDH?

A dificuldade que vivenciei como coordenadora do primeiro CREAS do Recife (Ana Vasconcelos), onde funcionava as Medidas Socioeducativas em meio aberto (Liberdade Assistida e Prestação de Serviço à Comunidade) assumidas pelo município em parceria com a Terceira Vara da Infância e Juventude da Capital/TJPE.

O PIA (Plano Individual de Atendimento) continha todos os direitos violados destes(as) adolescentes que precisavam ser resgatados, sendo um deles a falta de retorno ao sistema educacional. Sanar essa violação envolveu quase que batalha do CREAS e do Juizado junto a Secretaria Estadual de Educação, no sentido de abrir essa vaga e garantir a permanência do(a) socioeducando na Escola, mediante acompanhamento sistemático do orientador social e do pedagogo da equipe técnica do CREAS.

Nesse acompanhamento era possível perceber o preconceito e a discriminação a estes adolescentes que sempre eram vistos como uma ameaça. Encerrei minhas atividades no CREAS com a preocupação de encontrar alternativas de superação em como trabalhar a inclusão social quando o sistema educacional público não é inclusivo para cidadãos em situação de vulnerabilidade social e risco pessoal e social.

Entendi na formação que fiz na TDH, que o processo circular abriria caminho para a desconstrução desses valores preconceituosos contra a juventude popular.

3. Por que você escolheu o Lar Fabiano de Cristo?

Porque essa metodologia não ia funcionar em estruturas organizacionais verticalizadas, ou fechadas e sem serviços de apoio da rede complementar. Ela funciona muito bem em estruturas organizacionais horizontalizadas, com escuta ativa e atenção plena para desenvolver a inteligência emocional dos participantes. É importante que a entidade seja membro ativo da rede de apoio de serviços complementares para o atendimento de suas demandas. Pela minha vivência como militante dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes e atuação no COMDICA, não tive dificuldade de selecionar a entidade que tinha o perfil mais adequado para essa replicagem metodológica.

4. Como foi o contato com gestores e educadores sobre a Cultura de Paz e Mediação de Conflitos?

Houve uma feliz coincidência no campo da convergência dos interesses das duas partes envolvidas. Eu como mestranda precisava de uma instituição para testar a minha pesquisa, que consistia em realizar formações teórico-práticas em resolução positiva de conflitos e realizar entrevistas individuais com os quatro segmentos da comunidade socioeducativa: gestoras, profissionais, educandos e famílias.

A entidade, naquele momento, estava concluindo seu planejamento anual e nele constava como prioridade captar recursos para contratar uma formação sobre em Cultura de Paz e resolução de conflitos, usando a ferramenta do processo circular. Houve uma adesão muito positiva, comuniquei a minha orientadora que participou dos acordos formais entre as partes. Inclusive solicitamos uma autorização da coordenação nacional do Lar Fabiano de Cristo, pela publicização que haveria dos resultados da pesquisa em uma dissertação de mestrado de uma Universidade Pública.

O trabalho foi árduo, porque tivemos pequeno espaço de tempo, mas compensado pelo apoio irrestrito da equipe, inclusive daqueles profissionais já desesperançados com a possibilidade de redução de conflitos e violência por serem oriundos da violência estrutural, mas participaram e sentiram a diferença com as práticas desta metodologia.

5. Qual é o papel que a família, alunos, gestoras e profissionais (educadores e técnicos) têm para possibilitar uma transição da Cultura da Violência para a Cultura de Paz?

Eles precisam entender a diferença entre conflito e violência e os recursos teórico-práticos que dispomos para uma intervenção positiva com o resgate dos vínculos rompidos que na maioria das vezes causam muita dor e sofrimento não só as vítimas, mas a todo o sistema ou comunidade onde eles estão inseridos. Essa energia ou força é muito revigorante para o coletivo. Toda essa prática não pode ocorrer de forma individualizada, mas planejada antes e depois de cada evento pelo grupo. 

6. Quais as lições aprendidas com a replicagem da metodologia?

Eu percebi a importância do processo formativo dos educadores de forma continuada sobre temas como paz, conflito, violência, diálogo e convivência, afinal, estas pessoas não recebem essa formação em sua grade curricular, como afirmou Xesús Jares (2007).

O aumento da conflituosidade acarreta a presença da violência em todo o tecido social, por ser oriunda de uma violência estrutural ou de um sistema socioeconômico competitivo, influenciando o modelo do sistema educacional formal, portanto, o problema dos conflitos e violências só será resolvido de forma positiva quando forem trabalhados de forma cooperativa, envolvendo os atores e seus pares.

Outro fator importante são os “encontros de intervisão” de forma periódica, com a finalidade de discutirem os casos e as intervenções feitas pelos profissionais neste grupo, para gerar massa crítica e juntos revisitarem os referenciais teórico-práticos.

O impacto causado pela função do “bastão da fala” garante um espaço seguro para as contribuições no círculo para a resolução do problema. A prática do centramento ou meditação proporciona o desenvolvimento da atenção plena e da inteligência emocional. O conjunto dessas coisas desperta o grupo para a importância do cuidado com o outro e consigo mesmo.

7. E hoje, como a metodologia se encontra em reprodução dentro do Lar Fabiano?

Venho acompanhando a unidade LFC desde o início da pandemia (primeiro semestre 2020), onde as atividades presenciais que geravam aglomerações foram suspensas no Estado de Pernambuco, atingindo o sistema educacional formal e não formal e os demais espaços de convívio coletivo. Essas atividades passaram a ser desenvolvidas de forma remota ou online, uma vez por semana com cada família e acompanhada pelo educador social responsável por cada grupo etário.

Nesse momento em Pernambuco, algumas atividades estão voltando mediante protocolo sanitário específico para a natureza do serviço. A grande maioria dos serviços educacionais e socioassistenciais, como é o caso do LFC que atua na proteção Social Básica da Assistência Social, ofertando o serviço de “Convivência e Fortalecimento de Vínculos” por grupos etários, em jornada de contraturno para as crianças e adolescentes, está previsto o retorno das atividades presenciais para fevereiro ou março de 2022.

A partir desse retorno é que poderemos avaliar a reprodução da metodologia TDH no Lar Fabiano de Cristo em Recife – PE.

8. Nós estamos no mês dos professores, como esta metodologia pode ajudar no ambiente de aprendizagem?

Destacamos aqui que o Lar Fabiano de Cristo não é uma unidade escolar e sim uma unidade socioassistencial, que oferta o serviço de “Convivência e Fortalecimento de Vínculos” por grupos etários.  Para as crianças e adolescentes, são ofertadas em jornada de contraturno. Para os adultos atividades formativas na perspectiva de geração de trabalho e renda e acompanhamento psicossocial. Os idosos com atividades complementares à saúde, bem-estar e cuidados nutricionais. Todos recebem acompanhamento psicossocial, visita domiciliar para monitorar o nível da evolução ou não do grau de vulnerabilidade social de cada Família.  

A pesquisa observou que as atividades da metodologia desenvolvidas na unidade receberam um forte apoio dos vários segmentos de profissionais e das gestoras por atuar na redução de conflitos e violências de forma positiva, possibilitando que cada segmento (gestoras, profissionais, educandos e famílias), independente de sua função, possa atuar como um redutor de conflitos tanto na unidade quanto na sua comunidade; os princípios não se chocam. Daí resulta nossa constante afirmação: a metodologia TDH possibilita fazermos uma transição da Cultura da Violência para a Cultura de Paz.

Entendi, na formação que fiz na TDH, que o processo circular abriria caminho para a desconstrução desses valores preconceituosos contra a juventude popular.

JOENILDA ALVES FEITOSA é socióloga e mestre em Direitos Humanos pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da Universidade Federal de Pernambuco – PPGDH-UFPE.

Atua prestando Assessoria na área socioeducacional, na cidade do Recife e na área rural da Mata Norte de Pernambuco, fazendo uso da Metodologia de Gestão Positiva de Conflitos da Terre des Hommes como alicerce básico da Cultura de Paz e Direitos Humanos destes beneficiários (as), visando à transição da “Cultura da Violência” para a “Cultura de Paz”.

Caso tenha dúvida, ou esteja interessado no trabalho desenvolvido por ela, pode entrar em contato pelo e-mail: joenildafeitosa@gmail.com


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