Saúde mental e estratégias de prevenção à violência

Com a chegada de setembro – mês que se tornou referência para o debate público sobre saúde mental – as redes sociais ficam inundadas de campanhas, informações e depoimentos sobre o tema, especialmente sobre a depressão e o suicídio. Não é apenas em setembro, no entanto, que os cuidados com a saúde mental, especialmente de crianças e adolescentes, exigem atenção, debate e conscientização.

Quase um bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental no mundo, três milhões morrem todos os anos devido ao uso abusivo de álcool e a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio. Os dados são da Organização Mundial de Saúde (OMS), que reiteradamente manifesta preocupação com o aumento de casos notificados de pessoas vivendo com sofrimento mental enquanto esta área permanece como uma das mais negligenciadas da saúde pública. A negligência dos governos no investimento, o estigma, a legislação punitiva e as diversas violações de direitos humanos se tornam impeditivos concretos para o acesso a serviços de saúde mental de qualidade. A OMS estima que, em países de baixa e média renda, como o Brasil, mais de 75% das pessoas com transtornos mentais, neurológicos e por uso abusivo de substâncias não recebem nenhum tratamento para sua condição.

Embora o debate sobre saúde mental tenha conquistado espaço na agenda pública, com campanhas e debates, muitas abordagens ainda são equivocadas ou insuficientes ao ignorar, por exemplo, as condições socioeconômicas da população brasileira como uma questão estruturante para a saúde coletiva.

Mais da metade entre os brasileiros, 54,9% segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população negra e parda é a que menos acessa recursos fundamentais – como água potável e saneamento básico -, e reside nas periferias de grandes centros urbanos. Territórios e sujeitos vulneráveis à violência, as periferias e seus habitantes, em sua maioria adolescentes e jovens, têm o direito à saúde e outros direitos fundamentais historicamente negados.

Ainda segundo a OMS, os dois principais fatores responsáveis pelo adoecimento psíquico são a violência e fatores estressores contínuos e 50% dos transtornos mentais começam a partir dos 14 anos de idade. A intersetorialidade das políticas públicas é uma dimensão central no debate sobre saúde mental, que ultrapassa o campo da saúde e envolve um complexo conjunto de elementos na assistência, educação, segurança. A partir dessa perspectiva, a falta de infraestrutura comunitária, os conflitos territoriais, a falta de acesso à emprego e renda, a exposição continuada à violência e outras violações recorrentes na vida de crianças, adolescentes e jovens está diretamente ligada a sua saúde mental.

Estratégia de prevenção à violência

Como é a qualidade das relações no ambiente escolar e comunitário? Como se desenvolve a relação com o corpo e a sexualidade? Como é a apropriação dos direitos e como é trabalhada a sensação de injustiça na violação destes?

Como se vive a cidade? Questões intrínsecas ao processo de desenvolvimento humano de todas e todos mas que, para crianças, adolescentes e jovens submetidos à violência – em qualquer manifestação – põe em risco diversos aspectos do desenvolvimento (como a capacidade de construção de vínculos, a linguagem, a concentração, a criatividade, etc.).

Partindo da necessidade de construir mais reflexões coletivas e fortalecer a participação de adolescentes e jovens no debate sobre a saúde mental como autocuidado e importante estratégia na prevenção da violência, o Instituto Terre des hommes realizou um debate sobre o tema na última semana. Com a mediação de Cícero Silva, adolescente integrante do projeto Mucuripe da Paz, contribuição da professora Alessandra Xavier, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Santiago de Compostela e de Ana Paula Brandão, coordenadora do CAPS¹ Infantil Maria Ileuda Verçosa, além das participações de Renato Pedrosa, presidente do Instituto e de Evelyne Lima, assessora comunitária.

Aspectos como a vulnerabilidade de quem cuida; a vida comunitária conflituosa e territórios vulneráveis à violência; a falta de trabalho formal/renda e a interação violenta com a polícia foram abordados no debate.

Esse circuito da violência nos diz que precisamos construir uma rede de proteção e de cuidados que garanta a nossa humanidade, que garanta a nossa capacidade de existir, de amar, de sonhar e de sermos protegidos. Quando falamos sobre prevenção à violência, precisamos falar de uma rede intersetorial muito bem integrada, de uma política pública estruturada: proteção no campo da assistência com CRAS e CREAS², mas também acesso à educação, renda, moradia.

Alessandra Xavier

A problematização colocada pela professora durante o debate proporcionou importantes reflexões sobre a necessidade da atuação articulada em rede para a prevenção da violência.

Um grupo de adolescentes e jovens do projeto Mucuripe da Paz esteve reunido para acompanhar a transmissão e participar do debate presencialmente. No momento, os jovens refletiram sobre os impactos que o fanatismo religioso e a relação violenta com a polícia tem em sua saúde mental.

¹ Centro de Atenção Psicossocial
² Centro de Referência e Centro de Referência Especializada da Assistência Social

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